você está lendo...
Territórios Ocupados

Morte em contraponto: o soldado, o refugiado e a ilusão da “moderação” na Palestina

8195373821_833180b801_b

Ainda não sabemos se a mais recente Operação israelense na Faixa de Gaza, Margem Protetora, chega a seu 31o dia ou se o atual cessar-fogo de 72h (que começou na terça, 5, e está prestes a vencer) pode ser o início de uma trégua definitiva entre Israel e Hamas e dar fim ao atual ataque israelense à Faixa de Gaza.

A poeira está baixando por agora, mas, enquanto isso, podemos ver o estrago: dados de hoje da ONU informavam que 1843 palestinos haviam sido mortos, sendo 1354 civis (86%) e, destes, 415 crianças (quase 25% do total); 64.650 pessoas tiveram a casa destruída ou seriamente danificada; 373 mil crianças necessitam ajuda psicossocial em uma população total de 1,8 milhão.

Para a psique israelense, algum impacto. Nos 12 dias da incursão terrestre (que começou dia 17, no décimo dia de operações), 64 soldados morreram. Além disso, 3 civis morreram por ataques de mísseis. Pelos movimentos de domingo (3), com a retirada das tropas, a incursão terrestre pode ter terminado. O governo israelense ordenou que tropas fossem alocadas próximas à fronteira de Gaza, em território israelense.

Morte em contraponto

A Margem Protetora teve dois personagens, duas vítimas, digamos, que podem esclarecer melhor do que falamos quando falamos da Palestina. Aquilo que devemos de fato olhar quando pensamos como a conjuntura política e os “ecos da História” afetam vidas individuais no Território. E porque a obsessão com a moderação ou o balanço das culpas – Israel ou Hamas? – é um jogo ilusório perigoso, que ignora a realidade política e o processo histórico em Palestina/Israel.

Jordan Bensemjoun era um soldado israelense. Ele tinha origem francesa e havia recém-migrado, em 2008, para Israel. Tinha apenas 22 anos quando morreu na Faixa de Gaza dia 19 de julho, no segundo dia da incursão terrestre da Operação, resultado de um ataque antimíssil do Hamas. Mais 13 soldados morreram com ele, que naquele momento faziam parte do ataque à parte leste da cidade de Gaza, onde ocorreu o massacre de al-Shujay’ea, com mais de 60 palestinos mortos.

Ele era, segundo noticiava o Haaretz, um ‘lone soldier’, um soldado estrangeiro que não tem qualquer família em Israel. O diário israelense afirmava que Jordan era um dos 5100 novos soldados migrantes que serviam no exército de Israel.

O outro personagem é o palestino Salem Shamaly, que tinha 20 anos quando foi assassinado por um atirador de elite israelense no mesmo dia 19. Ele havia sobrevivido ao massacre de al-Shujay’ea e procurava corpos em meio ao cenário apocalíptico pós-ataque. Mas enquanto ele olhava para o chão em busca de um sinal de corpo e aguçava sua audição para quem sabe escutar um som, um gemido que denotasse vida, ele foi alvejado. Um tiro certeiro que tirou sua vida.

A confirmação da identidade de Shamaly demorou três dias para ocorrer (no dia 22 de julho), depois que seus familiares viram o vídeo que percorria a internet, uma filmagem feita por um ativista do ISM (International Solidarity Movement) que o acompanhava na busca.

Nos três dias que separaram a sua morte até sua identificação, ele era uma morte anônima, ainda que ocorresse bem diante de nossos olhos, em nossas telas, repeat após repeat. Shamaly, de Gaza, cercado há sete anos, bombardeado pela terceira vez, um “filho” da Segunda Intifada, sobreviveu ao massacre, mas mesmo assim encontrou o destino que o ocupante quis lhe dar.

Já Bensemjoun vivia em Ashkelon, a cidade na costa que se tornou um dos mais frequentes alvos de foguetes do Hamas vindos da Faixa de Gaza. O Haaretz conta que o jovem se alistou dois anos atrás e estava entusiasmado para servir nas unidades de combate. Dizia o jornal: “Em fevereiro, ele postou uma foto uniformizado na página de Facebook mostrando suas asas e a insígnia no ombro das Brigadas de elite Golani, com a mensagem ‘Eu voltarei em alguns meses!’”.

No seu funeral, em Ashkelon, cerca de 6 mil pessoas estiveram presentes. Sua família francesa veio dar adeus, políticos deram o último adeus a Bensemjoun. Loren, uma das duas irmãs o chamou de “o irmão perfeito e o filho perfeito: modesto, humilde e corajoso”.

“Eu voltarei”… Talvez Bensemjoun não entendesse árabe, mas muitos dos palestinos que morriam na operação de sua unidade, a Golani, nos bairros de Gaza quisessem lhe dizer a mesma coisa. Se estivesse disposto a ouvir e não a matar, saberia que aqueles a quem fora enviado controlar ou eliminar lhe contariam dolorosas histórias de refúgio, causadas a seus pais e avós pelas gerações anteriores que permitiram ao francês migrar a Israel sobre uma Palestina apagada.

Shamaly não terá enterros honrosos, mas entra para a memória coletiva de perdas da questão palestina. Mohammed Alqattawi, primo de Salem, disse que ele à Electronic Intifada que ele “trabalhava como um vendedor de doces com seu pai no mercado velho da cidade de Gaza e não ‘tinha absolutamente’ com qualquer brigada militante ou o governo do território liderado pelo Hamas”. Jehan Alfarra, blogger de Gaza que está na Inglaterra, descobriu a identidade do morto e descreveu: “Submerso em tristeza, o tio de Mohammed se levantou para rezar e ler partes do Corão, na esperança de que Deus possa lhe dar algum tipo de paciência sublime que ele precisa para poder acalmar suas tristes filhas”.

A população da Faixa de Gaza é basicamente de refugiados. Dados da Unrwa (Agência de Assistência a Refugiados Palestinos) de 1o de janeiro deste ano diziam: só em Gaza, havia 1,240,082 refugiados palestinos registrados em oito campos. Isso dá conta de cerca de 66% da população total, hoje em seus 1,8 milhão de pessoas. Sobre a falta de estrutura dos “campos de refugiados” de Gaza pesa as carências causadas pelo cerco, ao que já me referi em artigo anterior.

Bensemjoun pisava na terra que os sionistas colonizaram e queriam transformar à imagem e semelhança do que eles consideravam ser um projeto nacional. Uma terra com adjetivos judaicos para o povo judeu, um nacionalismo que precisou de métodos colonialistas, um exclusivismo étnico a ser construído numa percepção orientalista do mundo. Para isso, precisavam limpar a Palestina, precisavam erigir seu prédio sobre costumes, sobre vidas e sobrevidas, sobre rezas e culturas, sobre cemitérios. Bensemjoun foi o migrante europeu do século XXI que, como muitos antes dele, podia desfrutar das benesses de um esforço colonial no Oriente Médio.

Décadas antes do francês pisar e morrer em Gaza, Yigal Allon – que atingiu altos postos militares e políticos na História de Israel – estava lá, como o segundo no comando das forças do Haganah durante a operação militar sionista em 1948. Foi o ano-chave da despossessão, o ano interminável que foi a base fundamental das relações entre os povos do Território, que marcou a clivagem colonialista do uso da violência e da destruição como forma de dominar, reconstruir e remodelar a política e a sociedade. Os historiadores, palestinos e israelenses, revisitam constantemente aquele ano. Nós, jornalistas, devíamos fazê-lo também.

Em outubro de 1948, Allon comandava a Operação Yoav, que o historiador Benny Morris identificou como a quarta e última fase (entre outubro e novembro) da expulsão dos palestinos naquele ano. Diz Morris: “Os habitantes das áreas conquistadas com a Yoav estavam nervosos e largamente desmoralizados antes que a batalha fosse montada. Eles eram quase todos muçulmanos. Pequenas cidades (ou grandes vilas) como Isdud, Majdal e Hamama continham até que grandes populações de refugiados que haviam fugido de áreas do norte durante a primavera e o verão (de março a julho de 1948). Eles viviam sob um governo militar egípcio coercitivo e pouco simpático desde maio. Os egípcios eram inefetivos e frequentemente tinham uma mão pesada, e eram considerados por muitos como ocupantes estrangeiros; eles estavam constantemente com falta de suprimentos e não eram generosos com os locais, cujos campos, em muitos casos, tinham sido devastados ou feitos inacessíveis pelas hostilidades. Mais do que isso, durante a Segunda Trégua (entre Israel e os países árabes, de 18 de julho a 15 de outubro)(…) os locais entenderam que o impasse seria quebrado e que eles estariam na linha de fogo, e que o exército egípcio era fraco. Eles temiam o agitar da guerra e temiam a conquista e estar sob um governo judaico; eles também haviam ouvido falar de Deir Yassin”*.

A Majdal a que Morris se refere não existe mais. Ela foi destruída, despovoada e sobre ela foi erguida Ashkelon, a mesma onde o jovem Bensemjoun foi enterrado. Novamente a câmera de eco da História. Parece que o relato de Morris traz notícias de ontem, um fato localizado perfeitamente antes do que ocorre em Gaza hoje, a linha lógica do que alimenta o motor político na lógica de destruição que é a construção de Israel. Mas ignoramos a História, e ao invés disso nos deixamos estar presos no círculo infernal do espetáculo da morte entre o governo israelense e as forças do Hamas. E então todo nosso julgamento cai sobre os atores na arena, e não no mundo fora dela. Abordamos o show, gastamos horas e horas analisando o show, e nunca as forças e dinâmicas que fazem com que ele aconteça.

O também historiador israelense Ilan Pappé nos conta que a região sul do Território – que hoje engloba Gaza, o Negev e a parte oeste do distrito de Hebron, na Cisjordânia -, era a “última frente” do esforço sionista na “limpeza étnica” de então. “Yigal Allon, consciente de que as melhores brigadas estavam sendo usadas para operações de limpeza étnica em áreas povoadas, agora desejava redirecioná-las para ocupar o Negev: ‘Preciso substituir a Brigada do Negev pela Brigada Harel (*comandada por Yithazk Rabin, e que havia realizado a Operação Nachson, em abril, que incluiu o massacre de Deir Yassin) e desejo ter a Brigada Oito”. Era o final de 1948 e quase o total de 750 mil palestinos já haviam sido expulsos.

Shamaly morreu nos escombros, o símbolo da vida eternamente fragmentada dos palestinos. Uma vida de uma luta incessante para recolocar e juntar os pedaços de uma vida moderna no refúgio, sob massacres, a tragédia do povo abandonado, que se levanta nas inúmeras formas de resistência que eles conseguem construir. Bensemjoun fazia parte do projeto que estava ali para despedaçar aquelas vidas. É essa relação contrapontual na construção da identidade e da política que Edward Said tentava descrever em seu “Cultura e Imperialismo”.

Said queria alertar a impossibilidade de fugir da violência, de imaginar que possamos viver em um mundo imaginário onde os Netanyahus e os Abbas possam sentar eternamente num circo e “negociar” para que nem Jordans nem Salems tenham que morrer. Muito menos a relação contrapontual de Said queria que nos entregássemos e aceitássemos a roda da morte que de quando em quando ocorre, e então que nós também dançássemos com eles, com nossos passos de análises altamente elaboradas atribuindo culpas, medindo do direitos de cada num tabuleiro racionalizador. .

Said na verdade queria nos dizer que a lógica será interminável e que não há possibilidade de vida enquanto separarmos israelenses e palestinos em lados de arenas e olharmos para a cultura do colonizador sem considerar o que ele faz com o colonizado. Israel é aquilo que ele fez e faz aos palestinos. E os palestinos se moldaram para não perecer como povo diante dos israelenses.

O contraponto então se configura na mais humanista das ideias não porque evita a violência ou foge dela, mas porque olha fundo nos seus olhos. Porque de alguma forma enxerga estruturas onde todos somos passíveis de realizá-la e, assim, possamos pensar em projetos longe dessas estruturas. “O legado todo daquilo que podemos denominar, metaforicamente, de tensão entre Kipling, que acabou enxergando apenas a política do Império, e Fanon, que tentou enxergar para além das afirmações nacionalistas que se seguiram ao imperialismo clássico foi calamitoso. Admitamos que, dada divergência entre o poder colonial europeu e o das sociedades colonizadas, havia uma espécie de necessidade histórica de que a pressão colonial criasse uma resistência anticolonial. O que me interessa é a maneira pela qual, décadas depois, esse conflito prossegue numa forma empobrecida e por isso muito mais perigosa, devido a um alinhamento acrítico entre intelectuais e instituições de poder que reproduz o modelo de uma história imperialista anterior. Isso resulta, como observei anteriormente, numa política de atribuição de culpas e numa drástica redução no leque de materiais apresentados à atenção e à controvérsia pelos intelectuais públicos e historiadores culturais”.

Essa complexa contradição, o entrelaçamento dramático entre o colonizador e o colonizado está no cerne da questão palestina. Muito antes de Jordan, um outro soldado, Binyamin Eshet, pisou na Palestina. Ele, nascido na Polônia em 1927, sobrevivente do Holocausto, estava sob as ordens de Allon em 1948. Em depoimento à organização Zochrot, gravado em 2005, ele dá forma em drama a essa relação contrapontual em Palestina/Israel:

“- … A coisa em si, o refugiado que foge de sua casa, quando ainda estava quente, que ainda estava bebendo seu café, que de repente se tornava um refugiado e não tinha mais nada.

Veja, não vou lhe dar minha opinião sobre isso, entenda como queira. Mas eu, como um sobrevivente do holocausto, era traumático para mim. (…)

Depois da Guerra dos Seis Dias (1967), nós fomos em uma viagem para a Cisjordânia. Nós chegávamos como vitoriosos, como vitoriosos.

Então, um árabe lá me disse, ele era um comunista, ele havia aprendido russo na Rússia: ‘O que estão fazendo aqui? Quem convidou vocês aqui? Aqui não é de vocês. Agora, lá onde vocês estão assentados (Israel), pertenceu a minha família por gerações’.

Isso era perto de Sebastia.

Quando eu cheguei em casa eu comecei a pensar que talvez ele estivesse certo. Talvez houvesse algo sobre isso que… os refugiados… todos os… começava a se misturar, eu sendo um refugiado e eles sendo refugiados.”

Anúncios

Discussão

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: